terça-feira, 23 de outubro de 2012

Conferência


O estatuto dos judeus em Estrasburgo no século XVIII:
Questões entre indivíduos, o Magistrado urbano e a Coroa francesa

HANNA SONKAJÄRVI
Instituto Histórico Alemão de Paris/Universidade Duisburg-Essen, Alemanha

Local: Instituto de História/IH 
Largo de São Francisco, n. 1, sala 427
Horário: as 14:30
Organização: Niej/UFRJ e PPGHIS/UFRJ

domingo, 22 de julho de 2012

Casa Stefan Zweig inaugurada em Petrópolis


Reproduzimos parcialmente, abaixo, matéria publicada no caderno "Prosa e Verso", do jornal OGLOBO, no dia 21 de Julho de 2012 :
Casa Stefan Zweig será inaugurada em Petrópolis sem apoio brasileiro 
Casa Stefan Zweig, em Petrópolis, espécie de centro de memória do legado do escritor idealizado por seu biógrafo Alberto Dines, será inaugurada no próximo sábado, dia 28, sem que o governo brasileiro tenha movido uma palha para homenagear o autor da expressão “Brasil, país do futuro” (título do livro publicado em 1941), repetida mundo afora e usada pela propaganda pátria. A compra da casa, a reforma, a demolição dos puxadinhos, o replantio do jardim, tudo foi financiado pelos governos alemão e austríaco, como se o escritor nada tivesse a ver com nossa cultura. Alguns empresários e notáveis brasileiros completam a lista de patronos, num investimento inicial de R$ 1,2 milhão.
No biênio 2011/2012, que reunia três efemérides importantes (70 anos da obra emblemática escrita no Brasil, 130 anos do nascimento de Zweig e sete décadas de seu suicídio ao lado da mulher Lotte, naquela mesma casa), a secretária de Comunicação do governo Dilma, Helena Chagas, recebeu Dines em audiência em Brasília para ouvir suas sugestões. 

— Como jornalista, eu não estava lá para pedir dinheiro. Fui dizer que o Brasil tinha uma dívida com Zweig, e que as efemérides eram uma oportunidade de nos encontrarmos com o passado, através da emissão de um selo, um carimbo, uma moeda. Mas nada foi feito. Nem sequer uma nota, um comunicado, um texto de louvor. Não foram capazes de liberar, em regime de comodato, nem a matriz em gesso da máscara mortuária de Zweig, jogada num armário aqui no Instituto Histórico Geográfico, ligado ao Ministério da Cultura — lamenta Dines. 

A omissão é ainda mais grave se voltarmos no tempo, mais especificamente a um ano após o suicídio do casal (que ocorreu em fevereiro de 1942). Impressionado com as exéquias oficiais no enterro de Zweig, seu cunhado, Manfred Altmann, de personalidade ranzinza, teve um arroubo extremo de retribuição e ofereceu ao governo brasileiro todo o acervo do escritor austríaco, que estava na casa em Bath, Inglaterra, desde que fosse exposto em sua última morada. 

A lista de pertences era assombrosa. Além dos 560 volumes de suas obras — entre originais, encadernações e traduções, e dos manuscritos, cartas, diários e livros de notas —, havia móveis de sua passagem por Paris, Viena, Salzburgo, Londres, Bath e Petrópolis, e ainda retratos autografados de amigos íntimos de reputação internacional como Freud, Romain Rolland, Toscanini, Rilke e Strauss.
Para continuar lendo esta matéria, acesse: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2012/07/21/casa-stefan-zweig-sera-inaugurada-em-petropolis-sem-apoio-brasileiro-456389.asp

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Refugiados africanos e a manipulação das palavras


Por Guila Flint*
Um grande drama vem ocorrendo nos últimos dias em Israel. A Polícia de Imigração começou a prender imigrantes do sul do Sudão – homens, mulheres e crianças – para expulsá-los imediatamente, depois que a Corte do Distrito de Jerusalém autorizou a repatriação dessas pessoas.
Em meio a esse drama, grande parte da mídia israelense adota a linguagem utilizada pelo governo e colabora com a manipulação das palavras conduzida pelo ministro do Interior, Eli Ishai, do partido ultraortodoxo Shas.
A expulsão é chamada de “Operação Volta para Casa”, os refugiados africanos são qualificados como “infiltrados” que serão “afastados”, e, de acordo com os documentos que são induzidos a assinar, estariam confirmando que “voltam a seu país por sua própria vontade”.
Aqueles que assinarem o documento receberão o valor de mil euros e terão mais alguns dias para desfazer as vidas que construíram aqui durante anos.
Com exceção do jornal Haaretz e do Canal 10 da TV israelense, os grandes veículos de comunicação adotaram a linha e a linguagem do governo e jornalistas importantes escrevem artigos apoiando a “volta para casa” dos africanos. O Haaretz e o Canal 10 – um dos três canais abertos de televisão – são considerados os veículos mais progressistas da grande imprensa israelense.
Desculpa esfarrapada
ONGs de direitos humanos acusam o governo de realizar uma caçada humana nas ruas das grandes cidades, em busca dos refugiados do sul do Sudão. De acordo com a ONG Assaf (Associação de Assistência aos Refugiados), várias pessoas que deverão ser expulsas nos próximos dias pediram que as autoridades israelenses lhes forneça barracas, pois não têm para onde ir quando chegarem ao Sudão do Sul.
Durante a guerra naquele país, várias aldeias foram destruídas, famílias se dispersaram e muitos foram mortos. Os refugiados, que entraram a pé em Israel procurando abrigo durante a guerra no Sudão, já se encontram no país há mais de cinco anos. Muitos deles se casaram aqui, tiveram filhos e hoje a comunidade de sudaneses do sul é de 800 pessoas, incluindo cerca de 400 crianças.
Mais de 60 mil cidadãos africanos entraram a pé em Israel, pela fronteira do deserto do Sinai, nos últimos anos. Cerca de 40 mil são da Eritreia, 15 mil do norte do Sudão e os 5 mil restantes vieram de outros países, como Costa do Marfim e Congo.
De acordo com o ministro Eli Ishai, “os infiltrados representam uma ameaça para o caráter judaico do Estado de Israel”. O ministro, que também qualificou os imigrantes africanos como “criminosos” e “disseminadores de doenças”, afirmou que todos eles devem ser presos e expulsos.
No entanto, Israel é signatário da Convenção das Nações Unidas sobre os refugiados, que proíbe a repatriação para a Eritreia e Sudão, pois os imigrantes correriam risco de vida se voltassem a seus países. Em relação à pequena comunidade dos sudaneses do sul, a situação mudou depois que, no ano passado, foi fundado o novo Estado, o Sudão do Sul.
A ministra da Agricultura do Sudão do Sul, Beti Ogwaru, pediu ao governo israelense que permita a permanência dos refugiados no país por mais algum tempo e afirmou que o jovem Estado ainda não tem condições para recebê-los. Porém, a Corte do Distrito de Jerusalém aceitou a posição do Ministério do Interior, que argumentou que, como já foi fundado o Estado do Sudão do Sul, pessoas originárias dessa região podem ser excluídas da chamada proteção coletiva “pois não correriam risco de vida se retornassem a seu país”.
“Roupa molhada”
Desde a decisão da Corte, no dia 7 de junho, a Polícia de Imigração iniciou a detenção dos refugiados, que estão sendo enviados, juntamente com as crianças, a uma prisão no sul do país, onde aguardarão os voos que os levarão de volta para o Sudão.
Uma delegação de diplomatas do Sudão do Sul, que veio a Israel para verificar a situação dos refugiados, condenou a maneira violenta como estão sendo tratados pelas autoridades israelenses.
Dezenas dos mais importantes intelectuais israelenses, muitos deles ganhadores do Prêmio Israel, publicaram um abaixo-assinado condenando a maneira como os refugiados africanos estão sendo tratados. “Muitos dos fundadores de Israel eram refugiados. Suas famílias sofreram de racismo e xenofobia”, lembra o texto, que foi publicado no Haaretz e também cita a tradição judaica que incentiva o “amor ao estrangeiro”.
No entanto, neste país, construído para dar abrigo aos refugiados judeus que sofreram os horrores do racismo, hoje se pode ver cenas como a descrita pela israelense Maya Michaeli, no dia 12 de junho.
“Estou voltando agora do ‘afastamento’ de uma família de amigos sudaneses, 8 pessoas, para a prisão Saharonim e de lá, no próximo domingo, para o Sudão do Sul... foram levados sem tempo para se organizar, fazer as malas, se despedir dos amigos, dos vizinhos, da escola, sem poder receber o último salário... não sei como descrever o que senti, só posso lembrar fragmentos de cenas – um sapato caindo da mala que justamente se rasgou naquele momento, uma tigela de cereais que alguém estava comendo no momento em que os policiais chegaram, a roupa molhada pendurada no varal...”
Tratamento justo
ONGs de direitos humanos exigem que as autoridades deem um prazo, de pelo menos dois meses, para que os imigrantes possam se organizar antes da repatriação.
As organizações também afirmam que o governo tem a obrigação, pela lei internacional, de analisar individualmente os pedidos de asilo político dos imigrantes, para verificar se correriam perigo de vida ao voltar a seu país.
De acordo com Sigal Rozen, diretora da ONG Moked, que presta assistência jurídica aos refugiados, “Israel tem o direito de limitar a entrada de refugiados, mas deve dar um tratamento justo e digno para aqueles que já estão aqui”.
*Guila Flint, jornalista brasileira residente em Tel Aviv, cobre o Oriente Médio para a imprensa brasileira desde 1995 e é autora do livro Miragem de Paz – Israel e Palestina, Processos e Retrocessos, Editora Civilização Brasileira

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Introduction to Holocaust Literature



Divulgamos o mini-curso intensivo que será ministrado pelo Prof. Dr. Maxim D. Shrayer (Boston College, USA), renomado especialista em literatura russa e em estudos judaicos:
"Introduction to Holocaust Literature" 
Course Description
A brief overview of the history and legacy of the Shoah (Holocaust) followed by an examination of the variety of literary responses by literary witnesses and survivors, as well as by writers removed from the wartime horrors by distance, time, country, and language. Questions of metaphysics, ideology, ethics, aesthetics, memory, and cultural theory as formulated and debated in poetry, fiction, nonfiction, and discursive writings. The readings include works originally written in Russian, Yiddish, Polish, German, French, and English by Ilya Selvinsky, Vasily Grossman, Ilya Ehrenburg, Pavel Antokolsky, Lev Ozerov, Avrom Sutzkever, Tadeusz Borowski, Paul Celan, Theodor Adorno, Elie Wiesel, Vladimir Nabokov, Hannah Arendt, Arthur Miller, W. G. Sebald and others. All the required readings will be in English translation; the students are encouraged to read these works in the original if they can and contribute their linguistic and cultural expertise.
Informações úteis
O curso será oferecido em inglês e se dirige, preferencialmente, a um público de pós-graduação. Sura duração: 28 de maio a 1 de junho (de 2ª a 6ª feira), de 9h às 12h.Local: sala L-1156.
Organização: Instituto de Estudos Avançados em Humanidades e Programa de Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio.
O aluno que desejar assistir o mini-curso deverá solicitar inscrição para Daniele <posgraliteratura@puc-rio.br>. Código da disciplina : LET 2519/1DC. Vale 1 crédito (15 horas). Vagas limitadas!
Currículo resumido do Prof. Dr. Maxim D. Shrayer:
The author and scholar MaximD. Shrayer was born in Moscow,in 1967, to a Jewish-Russian family, and spent nine years as a refusenik. Heand his parents left the USSRand immigrated to the United Statesin 1987, after spending a summer in Austria and Italy. Shrayer attended Moscow University, Brown University, Rutgers University and Yale University, where he received a Ph.D. in1995. He is Professor of Russian, English, and Jewish Studies at Boston College, where he co-founded the Jewish Studies Program. Shrayer has authored and edited over ten books of criticism, biography, non-fiction,fiction, and poetry, among them The World of Nabokov’s Stories and thepath-breaking critical study Russian Poet/Soviet Jew. He is the author of the acclaimed literary memoir Waiting for America: A Story of Emigration, the firstwork to chronicle the experience of Soviet Jewish refugees in Austria and Italy, and of the collection Yom Kippur in Amsterdam. Shrayer won a 2007 National Jewish Book Award for histwo-volume Anthology of Jewish-RussianLiterature, which has become a standard text for the study of Russia’s Jewish culture and history. Maxim D.Shrayer has been the recipient of a number of fellowships and awards, includingthose from the National Endowment for the Humanities, the Rockefeller Foundation, and the Bogliasco Foundation. He lectures widely on topics rangingfrom the legacy of the refusenik movement and the experience of ex-Soviet Jewsin Americato Jewish-Russian culture.
For moreinformation, visit Shrayer’s literary website at www.shrayer.com or hisacademic website at http://fmwww.bc.edu/SL-V/ShrayerM.html

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Israel's Moral Peril


By Alan Wolfe

In the past few years, a trickle of dissent with respect to Israel has turned into a running stream. Books, articles, and Web sites critical of Israel's treatment of the Palestinians, its acquiescence in the messianic designs of its settlers, its foreign-policy decisions on Gaza, Iran, and much more, and the increasing influence of the ultra-Orthodox over the character of its domestic life have begun to appear in significant numbers in America. Some, but not all, of these efforts, moreover, come from writers unused to being in the critical camp. The question is rapidly becoming not whether one should find fault with Israel, but how.


Two quite contrasting points of view have emerged among the critics. One can be called liberal and the other leftist. Liberals accept Israel's legitimacy, search for ways that it can respect the rights of its non-Jewish citizens, and believe that the only viable future for the country is a two-state solution, one primarily Jewish, the other primarily Palestinian. Leftists view Israel's creation in 1948 as an outgrowth of European colonialism, insist that as a Jewish state its character is inevitably racist, and lean toward the eventual creation of one state containing both Jews and Arabs. Should Israel's actions continue to provoke opposition around the world, the question of which of these approaches will attract the most followers will become increasingly important.

I have a personal interest in this topic because I now count myself among the critics. For decades, I managed to write about some of the more controversial issues dominating the world without writing about the Middle East. The reason was simple: I was too intellectually paralyzed to do so. As a child, I had displayed an Israeli flag and carried blue-and-white coin boxes whose proceeds would plant trees in the new state. That, however, was about it: Serious Hebrew lessons, Zionist summer camps, and trips to the Middle East were of little interest to either my secular parents or me. Yet for all my family's tendencies toward assimilation, Israel's legitimacy was never questioned. Jews had been the victims of the greatest monster in history. Supporting the new state was the least the world could do to make up for it. We were, as I recall, vaguely aware that Arabs already lived on the land Israel claimed, but their complaints, to the degree that we heard them at all, seemed trivial by comparison to what had happened to our people.

Attribute it, if you must, to the failure of my parents to raise me as a good Jewish boy, but even my youthful lukewarm support for Israel eventually turned cool. Israel's stunning victories in the 1967 war sent a thrill through the American Jewish community; I felt my share of that, but I was too much involved in the protests against Vietnam to become an enthusiast for war of any kind. Campaigns on behalf of Soviet Jewry in the 1970s left me with an uncomfortable feeling of selective indignation: Of course the Jews in Russia and the Ukraine ought to be able to leave, but among the world's atrocities at the time, including the brutality of Idi Amin and the genocide led by the Khmer Rouge in Cambodia, the plight of Soviet Jewry did not rise to the top. By 1982, when Israeli forces enabled the massacres of Palestinians by Christian militiamen in the Sabra and Shatila refugee camps in Lebanon, I knew that a personal line had been crossed. The more innocent Israel of my youthful imagination no longer existed.

Nonetheless, I kept my concerns to myself. No matter how cruel Israel's actions appeared, I believed that Jews were still entitled to the moral benefit of the doubt. Israel remained a democratic state, a rare achievement in the Middle East. It had been created, in part, as a refuge for the unwanted, and while it might not be an appropriate home for me, there were Jews from Eastern Europe and North Africa who had found a safe haven there. As much as I might take offense at Israel's policies, they were formulated by a generation with a more direct connection to the Holocaust than I could ever have, protected by the decision of my grandparents to move to America in the early 20th century. I would not be a Zionist cheerleader. But neither would I follow the path of Israel's most stringent critics, who viewed it as an outpost of Western imperialism supported by an American lobby wielding, or so it was said, almost supernatural power in Israel's defense.

The ambivalence that once prevented me from speaking out on the Middle East is gone. Israel is now firmly on the right, while I remain on the left. The truly odious Arafat is no longer with us, and new Palestinian intellectuals and leaders are making an impressive case for statehood. The cruelty of Israel's blockade of Gaza, as well as the clearly peace-destroying intentions of Jewish settlers in Palestinian territory, are impossible to ignore. Chilling leaks suggest the possibility of an Israeli attack on Iranian nuclear facilities. All that has ended my silence. I wrote about some of these issues in my book Political Evil: What It Is and How to Combat It, and what I had to say about Israel was not kind.

I am hardly alone in this. The Web site Mondoweiss serves as a forum for those, mostly Jewish, who have major qualms about Israeli actions. Bruce Robbins, a humanities professor at Columbia University, is making a documentary film about American Jews, featuring scholars and intellectuals, many roughly my age, who have changed their minds and become critical of Israel. (Watching the trailer made me wonder if there something like a midlife crisis going on among those of us anxious to set the record straight as we approach our final decades.) It is doubtful that the talking heads featured in the film speak for the majority, or even a measurable minority, of ordinary synagogue attendees, but the existence of a certain level of disquiet even there is evidenced by the efforts of the organized Jewish community to adopt a new strategy. For example, in January, JTA, an international Jewish-news service, noted: "Enmeshed in the battle against Israel's delegitimization, mainstream American Jewish organizations are embracing a strategy of acknowledging what's wrong about Israel as a way of getting across what's right about the nation." The article went on to point out that the American Jewish Committee and the Union for Reform Judaism, for example, have strongly criticized Israel for hampering the work of nongovernmental groups that monitor human rights there.

Having such company is comforting, but the question for me still remains: Should my objections take liberal or leftist form? Several new books are helpful to me in making up my mind.

The liberal case has been articulated by two writers much younger than I am: Gershom Gorenberg, an American-born, Jerusalem-based writer whose The Unmaking of Israel (Harper) came out in November, and Peter Beinart, a senior political writer for the Daily Beast and an associate professor of journalism and political science at the City University of New York, whose The Crisis of Zionism (Henry Holt) has just been published.

Gorenberg loves his adopted country and wants to see it flourish as a liberal democracy. To do so, it will need to take three steps: ending the settlements and the West Bank occupation; reducing the influence of ultra-Orthodox Jews by separating synagogue and state more vigorously; and reforming the Israeli legal system so that all ethnic groups are treated equally. Those undertakings will all be difficult to accomplish, but Gorenberg is convinced that Israel will be more viable as a democracy and more secure in the long run if it voluntarily gives up land it cannot control. His is a vision of a much smaller Israel, "a country with a four-fifths Jewish majority and a Palestinian minority that must enjoy equal citizenship."

Beinart was once the editor of The New Republic (of which I am a contributing editor), a magazine known for its pro-Israel positions. His decision to become a critic of Israel, announced in 2010 in "The Failure of the American-Jewish Establishment," a much-discussed essay in The New York Review of Books, has now taken book form. The Crisis of Zionism is an impressive achievement. Among other things, Beinart brings to life a number of important liberal Jews in America, especially an undeservedly obscure Chicago rabbi named Arnold Wolf. Wolf studied with Abraham Joshua Heschel, the civil-rights firebrand, and in 1973 helped found Breira, the first American Jewish organization to come out for a Palestinian state in Gaza and the West Bank. As it happened, the Jews who were attracted to Wolf's perspective recruited a young community organizer named Barack Obama to work with them. Obama, Beinart argues, may never have been part of the Jewish world, but he was very familiar with this liberal Jewish awakening. Influenced by the Wolf circle, the aspiring politician was a liberal Zionist at heart, fully aware that a lasting peace in the Middle East would require Jewish support for a Palestinian state.

Beinart advocates a form of liberal Zionism roughly like Goren­berg's. He is therefore palpably disappointed that under Obama's presidency, liberal Zionism's moment has not come. Bibi Netanyahu, Israel's prime minister, has proved himself a master at playing off strong Congressional support for Israel against any presidential inclination to take the peace process seriously. Understanding the futility of fighting a battle he cannot win, especially with the most powerful Jewish organizations in the United States lined up behind the Netanyahu-led government, Obama has caved on his Middle East policy, allowing the settlements and the extremism of the ultra-Orthodox to continue unabated.

For all his disappointment, however, Beinart has not written a pessimistic book. Israel is encouraged on its illiberal path because Jews who are more universalistic in their moral outlook care less about it than do those who make Zionism central to their worldview. The solution, then, is for younger Jews to take their Judaism more seriously. As they familiarize themselves with the ethical side of their faith and promote Jewish learning through day schools, they can develop a voice capable of being both liberal and Zionist at the same time.

Any such quest for a liberal Zionism would be viewed as hopelessly naïve by leftist critics of Israel. One scholar who fits that description is Gabriel Piterberg, a historian at the University of California at Los Angeles. Born in Argentina but raised in Israel, Piterberg has published extensively in the New Left Review, a magazine known for both the erudition of its contributors and the Marxism that, in one form or another, has surrounded it since its birth, in 1960. Zionism is often viewed, both inside and outside Israel, as the story of how an oppressed people learned how to defend themselves by building a state of their own. All that is far too romantic for Piterberg. In a book that has been out for a few years but establishes the foundation for the leftist case, The Returns of Zionism: Myths, Politics and Scholarship in Israel (Verso, 2008), he argues that the history of the Zionist movement cannot be divorced from what he calls "white settler colonialism," the 19th-century efforts by European powers to create societies in their image around the world. The Zionist project, in that sense, was like the British settlement of Australia, the building of a Western-oriented state on land occupied by an indigenous people.

Some of Piterberg's material explores new ground, especially his demonstration of the ways the secular David Ben-Gurion, Israel's first prime minister, selectively used the Bible to justify Zionist claims. The book also contains a criticism of the work of the Israeli historian Anita Shapira, often viewed as a "humanistic" Zionist for her argument that the founders of Israel only reluctantly came to rely on force in the face of Arab revolt; Piterberg wants to show that all Zionists, left or right, share the same underlying neocolonial assumptions. Finally, he explores the ideas of Western Jews such as Bernard Lazare, Walter Benjamin, and Hannah Arendt, who saw the colonialist implications within Zionism and tried their best to expose them.

Far better known to American readers than Piterberg is Judith Butler, a professor of rhetoric at the University of California at Berkeley. Her book Parting Ways: Jewishness and the Critique of Zionism (Columbia University Press), which will be published in July, insists Zionism cannot be equated with Jewishness; that indeed, it stands in opposition to key themes in the Jewish tradition. "My contention from the outset of this book," she writes, "is that the relation with the non-Jew is at the core of Jewish ethics, which means that it is not possible to be Jewish without the non-Jew and that, to be ethical, one must depart from Jewishness as an exclusive frame for ethics." Long living at the mercy of others, she explains, Jewish thinkers were forced to think about the nature of the other. Like Piterberg, she focuses on Benjamin and Arendt, and adds significant material on the French philosopher Emmanuel Levinas.

Arendt's writings are the most relevant to the situation Israel finds itself in today. The key question for Arendt, according to Butler, is how we come to cohabit the world. Since they never had a state of their own, Jews never had a choice about whom they would live with. It is precisely that state of unchosenness that made Jewish ethics so vibrant. "If Arendt is right, then it is not only that we may not choose with whom to cohabit, but that we must actively preserve the unchosen character of inclusive and plural cohabitation," Butler writes.

The Nazis, it goes without saying, very much exercised choice in this matter: All too criminally, they chose not to live with Jews. Jews should never forget that. Although they consider themselves a chosen people, they ought to be especially wary of choosing to live with people only like themselves, Butler warns. That is exactly what Zionism seeks to accomplish. It is for that reason, she argues, that Israel has been illiberal from the moment of its creation.

Butler cannot be satisfied with the notion that much could be achieved if Israel were to stop building settlements and end its occupation of the West Bank. Because its very essence requires dispossession of non-Jews, justice can be served only if the Palestinians forced from their homes in 1948 are given the right to return. That would not result in the destruction of the Jewish people, Butler argues, but only in "the dismantling of the structure of Jewish sovereignty and demographic advantage." Vague on the details, she believes, as best as I can tell, that in what she calls "complex and antagonistic modes of living together," Jews would make the case on the basis of their own history of exile for why their Arab neighbors ought not to choose living without them. Presumably, then, Palestinian Arabs, in return, would, indeed, recall their more recent history of exile and understand why they should live together with Jews.

Gorenberg and Beinart are the better stylists among these authors, and their books, published by commercial houses, undoubtedly will receive wider attention than the work of academics such as Butler. Still, Butler has many admirers in the United States and abroad, and the views she expresses resonate with those who call for boycotts of Israel or identify with third-world liberation struggles. Which viewpoint becomes the most influential depends on larger political and social trends. Should there be an uptick in left-wing or anarchist radicalism in coming years—unlikely, in my view, but not impossible—the leftist critics could wind up gaining more adherents than the liberal ones.

One reason that the situation in the Middle East seems so intractable is that the current Israel leadership has no foreseeable plan for bringing peace to the region. Another, alas, is that neither the liberal nor the leftist critics of those leaders can spell out a persuasive vision of the future. Liberal critics, in my view, have the right idea, but the reforms they advocate seem hopelessly utopian in the current political atmosphere. Israel's leadership is not interested in criticism; if anything, it is trying to stifle it. Any attempt to roll back, let alone end, the settlements and the occupation is likely to produce violent resistance. There is little or no energy in Israel behind a two-state solution, and even the Palestinians who are trying to build statelike institutions on the ground are facing resistance from militants in their own camp. Israel really does face a choice between being a Jewish state or a democratic state—and the odds are in favor of the former.

The leftist position on the Middle East, however, represents little more than an exercise in irresponsibility. As a critic of Israel, I bristle when told that anyone who does not support Israel in down-the-line fashion is calling for the destruction of the Jewish state. But Butler, if I read her correctly, really is calling for the destruction of the Jewish state. In the trailer for the Robbins film, she ends her remarks with a passionate statement to the effect that honoring the rights of all refugees, Palestinians included, in no way overlaps with being anti-Jewish or anti-Semitic. In that she is right. But at the same time, her views unambiguously classify her as anti-Israel. She rightly points out that there are many kinds of one-state solutions. But hers would leave Israeli Jews at the mercy of people who would surely take revenge against them if given the chance. I realize that Butler is a philosopher and not a political scientist. Yet even philosophers must say something about the real-world implications of the ideas they advocate. Taking into account the other is indeed a feature of the Jewish ethical tradition. Collective suicide is not.

If forced to choose, naïveté is preferable to irresponsibility. That is why, in the end, I side with the liberals rather than the leftists. Israel is a fact of life and, given both its military strength and support from the United States, it is going to be with us for some time. For all its problems, moreover, its existence remains a good thing: At a time when Serbs, Slovaks, and Slovenians have states of their own, it is preposterous to say that Jews should not. In part because of Jewish settlements, but also because Palestinians have realized the advantages of statehood, the creation of one state containing both peoples has become impossible to imagine. It falls upon Israel, therefore, to decide whether its state will be a large one, containing an Arab population so numerous that it could be ruled only in the most repressive ways, or a smaller one, capable of treating the members of its minority Arab population as full citizens.

Because of the Holocaust, Israel really is a special case. Its creation involved more than the taking over of the land of others; it was meant to stand as a rebuke to hatred and intolerance. The fact that it is losing that moral advantage is a tragedy and not just a crime. Anyone concerned with making the world a better place should want to see Israel made a better society. That is the key truth upon which liberal critics insist, and which leftist ones deny.

Alan Wolfe is director of the Boisi Center for Religion and American Public Life and a professor of political science at Boston College. His latest book is Political Evil: What It Is and How to Combat It (Knopf, 2011).

Não deixe de conhecer nossos novos links:

Centro Internazionale di Studi Primo Levi
Centro Primo Levi

sábado, 24 de março de 2012

Aula de Árabe e de Hebraico na Casa de Rui Barbosa


Aula de Árabe e de Hebraico na Casa de Rui Barbosa (RJ): A Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) promove, a partir de 4 de abril, os cursos de árabe e de hebraico. A iniciativa, do Núcleo de Estudos em Oriente Médio da FCRB, tem como objetivo promover a alfabetização nos idiomas como instrumental em pesquisa.

As aulas serão às quartas-feiras, na sala de cursos da Fundação, nos seguintes horários:



18h às 19h30 – Hebraico, ministrado pela professora Sônia Levinbuk – nível iniciante;


19h30 às 21h – Árabe, ministrado pelo professor Nimatullah Antoine Hanna – nível iniciante.

A duração é de três meses e a mensalidade é de 80,00 por idioma.

Inscrições a partir de 26 de março, no Centro de Pesquisa da FCRB, com Deise (Rua São Clemente, 134 – Botafogo – Rio de Janeiro, RJ. Tel: 21 3289-8641).

Dica de: Claudia Altschuller (jornalista, RJ – Casa de Rui Barbosa)

quarta-feira, 14 de março de 2012

Lançamento


Acabo de lançar o livro “Vai embora da casa de teus pais” onde narro aventuras pessoais e coletivas, em Montevidéu, São Paulo e Israel, refletindo sobre as ilusões, equívocos e acertos, e da riqueza de uma época em que acreditávamos que era possível sair da casa dos pais para criar um mundo melhor.

Em São Paulo, o lançamento, com leitura de trechos do livro pela atriz Priscilla Herrerias e uma conversa com o historiador Celso Garvarz, será realizado na quarta-feira 21 de março, no Centro de Cultura Judaica (Rua Oscar Freire 2500), as 20:00 hs.

No Rio de Janeiro, o lançamento será realizado na quinta-feira 22 de março, no Midrash (Rua Venâncio Flores 184, Leblon) com leitura de trechos do livro e uma conversa com a participação de Arnaldo Bloch, Rosane Esquenazi e Nilton Bonder, as 20:30 hs.

Bernardo Sorj
Professor Titular de Sociologia da UFRJ (aposentado)
Membro do Conselho Editorial do NIEJ


sexta-feira, 9 de março de 2012

The Jewish Communities of Latin America


Acontece entre os dias três e seis de setembro de 2012, na Universidade de São Paulo, na cidade de São Paulo, a conferência internacional "The Jewish Communities of Latin America". O evento é produzido e organizado pela Universidade de São Paulo, pela Bar-Ilan University e pelo The Ahron and Rachel Dahan Center fot Culture, Society and Education in the Sepharadie Heritage. A conferência cobre uma variedade de assuntos, que podem ser conhecidos clicando aqui. Propostas de artigos podem ser enviadas até o dia 30/04/2012. Podem ser submetidos resumos em hebraico, espanhol, inglês e português. 



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A querela francesa do genocídio armênio


Corpo de armênios deixados para trás em uma das diversas deportações
forçadas. Original de: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/
1f/Morgenthau336.jpg. 
O genocídio armênio, evento ocorrido entre 1915 e 1923, onde entre seiscentos mil e um milhão e meio de armênios pereceram devido à execuções e deportações forçadas ordenadas pelo governo turco, causou na semana passada um feroz debate entre políticos e a sociedade civil francesa.

O motivo foi a aprovação da lei, no dia 23 de janeiro de 2012, que visa criminalizar a negação do genocídio, proposta pela parlamentar Valérie Boyer, do partido governista UMP. O texto prevê uma multa de 45.000 euros e encarceramento por um ano para o transgressor, tendo a proponente justificado a adoção da lei como uma proteção aos interesses morais e a honra das vítimas, assim como garantir um lugar simbólico para o evento na memória coletiva da humanidade [1]. O governo turco criticou duramente a decisão, qualificando a proposta de racista e discriminatória e ameaçou cortar completamente os laços diplomáticos com Paris. O Primeiro -Ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, acusou a França de ter cometido um genocídio contra a população colonial da Argélia nos anos 50 e 60 e que a lei era racista. Após um grande debate na Assembléia Nacional Francesa, no qual setenta e dois parlamentares tanto da direita quanto da esquerda assinaram uma petição para um teste da constitucionalidade da lei, sua tramitação foi paralizada [2].

Imigrantes turcos protestam em Paris contra a lei. Original de:
O episódio coloca uma questão importante em relação ao ofício do historiador. Ainda em 2006, propostas semelhantes causaram uma forte reação dentro do mundo acadêmico, resultando no movimento “Liberté Pour l’Histoire”, uma iniciativa de intelectuais que visava combater a ingerência da lei e do Estado no trabalho do historiador. Seu manifesto declarava “Em um Estado livre, nem o Parlamento nem a autoridade judicial devem definir a verdade histórica” e com esse argumento, conseguiram que as leis, naquela ocasião, se tornassem letra morta [3]. Diante da manifestação dos historiadores alguns perguntavam: Somente historiadores profissionais tem o “monopólio” da discussão da História? Os membros do Liberté diziam que o ofício do historiador não pode ser restrito por leis, que o debate sobre a “verdade histórica” tem que ser construído pela pesquisa acadêmica, que não cabendo ao Estado definir se um evento é mais digno de reconhecimento que outro. Pierre Vidal-Naquet, que antes da lei já se engajava na luta contra o negacionismo do holocausto, disse que a lei daria aos negacionistas o status de mártires [4], como se fossem perseguidos políticos. Um outro grupo de intelectuais, tendo Serge Klarsfeld e Claude Lanzmann entre seus membros, acusou os historiadores de colocarem seu ofício acima da lei e argumentaram que na verdade o foco da lei seria o negacionismo político e não haveria implicação negativa para a investigação histórica.

O episódio recente mostra que o problema das “leis memoriais” ainda não terminou. Leis como a n° 10639, que institui a obrigatoriedade de ensino de “História da África e dos Africanos” ou a lei municipal de ensino do Holocausto (Rio de Janeiro, Porto Alegre) em escolas públicas mostram que a comunidade de historiadores precisa debater e refletir  mais sobre o assunto.

Leonel Caraciki é mestrando em História pelo PPGHIS (Programa de Pós-Graduação em História Social)/UFRJ e membro do NIEJ.

[3] O episódio foi trabalhado no artigo de CARACIKI, L. V. S. ; WEBER, Isabelle Godinho . Newsletter NIEJ Quem dita a memória? Revisitando o movimento Liberté Pour L Histoire . Revista Eletrônica do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da UFRJ, v. 1, p. 21-23, 2009.
[4] Pierre Vidal-Naquet se refere ao caso de Robert Faurisson, um professor de Literatura da Universidade de Lyon que se tornou famoso negar publicamente o holocausto, participando de encontros realizados pela extrema direita através do mundo, tendo enfrentado diversos processos na justiça francesa por suas visões frequentemente consideradas antissemitas.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O retorno: é primavera em Zwickau, Alemanha


Cidade de Zwickau,  leste da Alemanha
Berlim, 21/01/2012 - É comum que mulheres e homens voltem-se para o futuro com esperanças e expectativas de mudança deixando para trás o passado. Mesmo a poesia – como em Drummond, de versos tão belos sobre o tempo presente – costuma valorizar o presente e adivinhar um futuro sempre melhor. Mesmo no cotidiano, nosso dia a dia, a vasta e vaga sabedoria popular nos diz “para esquecer o passado” e viver “para frente!”. Mesmo o famoso verso da “Internacional Comunista” (a canção) propunha “fazer do passado tábua rasa!”.
Possivelmente tudo isso é certo, bom e vantajoso para as pessoas. Talvez não seja o mesmo para as nações. Compreender bem o passado, entender como se chegou a situações atuais – boas ou más – e o que homens e mulheres fizeram em situações difíceis, tempos de provação, é uma lição importante para as sociedades.
Hoje, a sociedade alemã defronta-se mais uma vez com seu próprio passado. Um escândalo dito em meias palavras: durante 13 anos uma organização neonazista – Nationalsozialisticher Untergrund (“Clandestinidade Nacional-Socialista”) assassinou pelo menos 10 pessoas, fez mais de 14 ataques contra propriedades turcas e lugares de memória judeus, além de assaltar bancos. Ainda, assim, e apesar da conhecida eficácia da polícia alemã (ou talvez com o conhecimento dela, segundo o jornal “Tagesspiegel”), os terroristas permaneceram livres e atuantes, até novembro de 2011 – quando, sob perseguição, buscaram o suicídio.  Hoje, o Parlamento pede um inquérito visando estabelecer as ramificações e as condições em que agiram os três principais acusados, bem como as relações do grupo nazista e a polícia.
Não repetir o passado!
Mais uma vez,  por um tempo, vivo na Alemanha e busco entender este passado que se faz vivo a cada momento. O primeiro impacto, para olhos treinados,  é o exercício de conviver quotidianamente com os signos e ícones vivos de duas grandes guerras – a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e a Guerra Fria (1945-1991).  Além, é claro, da presença avassaladora dos genocídios – judeus, opositores, simples gente denominada de “anti-sociais”, gays, testemunhas de Jeová, ciganos, doentes mentais e deficientes físicos, todos considerados “sub-humanos” ( “Untermenschen” ) ou “gente de pouco valor racial”. Assim, ao esbarrar em cada ícone deste mundo que não passa, mais entendo o passado como algo vivo, real, pujante de signos. Aqui tropeçamos, literalmente,  na história, seja no caminho do trabalho, de casa ou do simples quando vamos barzinho para beber uma cerveja.
Aqui e ali a guerra mostra sua dura face: no pátio interno do meu prédio, na Rua da Comuna de Paris, os buracos de balas e as crateras dos morteiros soviéticos da Batalha de Berlin ainda são visíveis nos remendos apressados feitos nos fundos ( “Hinterhof” ) do prédio. A história banida para as paredes dos fundos, mostra uma cara cheia de cicatrizes.  Acordo e olho esta cara sem maquiagem do passado.  Diariamente estou  face a face com a guerra que foi a guerra de todas as guerras. Na esquina atravesso a Karl-Marx-Allee, que já foi a gloriosa “Avenida Stálin”, e que a revisão de Nikita Kruschev decidiu, em 1956, com mais pudor, denominar tão somente Karl-Marx-Allee.
No fim da minha rua o muro sobrevive com sua falsa alegria de pichações coloridas: são bons 200 metros de passado, com sua curva separando ruas, prados, quarteirões... E pessoas!
Para além dos lugares materiais, de pedra e concreto, a guerra sobrevive na mente de todos, um pouco zipada, para não fazer volume, mas está lá... Nos museus, em Karlshorst, onde o Marechal Keitel se rendeu ao Marechal Jukov, em maio de 1945, adolescentes correm com suas pranchetas e computadores, copiando datas, nomes, lugares, cifras... Nenhuma geração possui o direito de esquecer...
Rua da Primavera, Alemanha
E, no entanto esquecem... Em Zwickau, uma cidade industrial de 120 mil habitantes no estado da Saxônia, uma célula neonazista assassinou inúmeros estrangeiros (a polícia ainda trabalha para descobrir a extensão do grupo e dos mortos, até o momento chegou-se oito turcos, um grego e um policial alemão, como as vítimas conhecidas).  O grupo,  autodenominado “Clandestinidade Nacional-socialista” ( leia-se, nazista ), era composto – em sua base – por Beate Zschäpe, 36 anos; Uwe Mundlos, 38 anos e Uwe Bönhardt, 34 anos... Todos residentes na Rua da Primavera, 26, Zwickau. Eram quietos, calmos, respeitadores dos vizinhos, não cantavam ou faziam baderna durante jogos de futebol, e nunca ouviam música alto demais... O aluguel era pago pontualmente todo dia 25 do mês, incluindo todas as taxas. Identificados pela polícia, os dois Uwe se mataram e Beate explodiu a casa, na tentativa de evitar a identificação da rede nazista. Antes, porém, de forma piedosa pediu a vizinha para cuidar de seus dois gatos...
Beate escapou, e está presa: a polícia tenta estabelecer as relações da “Clandestinidade Nacional-socialistas” com outros grupos neonazistas em Berlin, Kassel e Hannover – e muito possivelmente com o Partido Nacional Republicano, que reclama a herança hitlerista.
 O grupo era conhecido da polícia, que possivelmente tinha um agente infiltrado na rede. Os arquivos policiais sabiam também das reuniões e dos “cultos” praticados em honra do Terceiro Reich, além de atos de vandalismo e agressão contra judeus e estrangeiros. Além disso, o grupo havia divulgado (em 2010), com venda livre na Internet, um cd denominado “Adolf Hitler lebt!” (Adolf Hitler vive!), com um tremendo “hit” denominado “Donner Killer” – Donner, kebap, é a comida, e ao mesmo tempo o nome das pequenas lojas de lanches rápidos, dos turcos residentes na Alemanha.
Os crimes, cometidos ao longo de treze anos,  que estavam sem solução, eram conhecidos como “os assassinatos do kepab”!
Entender o ódio
A pergunta que não se cala é imediata: por quê? Ou melhor: por que ainda? Nenhum dos três principais acusados – são jovens - viram a guerra, não conheceram o Partido nazista em sua época de apogeu e não participaram de suas massivas demonstrações cenograficamente preparadas. Ou foram “doutrinados” pela imprensa do Dr. Goebbels...  Como historiador, e acima de tudo como educador, gostaria de refazer o percurso destas pessoas e voltar à escola, aos livros e aos professores que tiveram...
Gostaria de saber como estudaram história: o que leram, se foram levados a algum museu ou exposição sobre a guerra ou se leram sequer cinco páginas sobre o holocausto?  Teriam vista sequer um filme, um documentário sobre os horrores na Rússia ou Polônia ocupada? Sabiam o significado de Auschwitz ou Treblinka?
O mal não é inato, não deve ser algo inscrito no DNA ou no “solo e no sangue” (“Blut und Boden”), como os próprios nazistas queriam... Não, a resposta não deve residir aí, ou caso contrário os nazistas teriam razão: a história seria construída pela determinação de raça. Não, a falha que permitiu o retorno do mal em Zwickau está, com certeza, em outros fatores.
Houve uma falha, algo que quebrou no fundo da vida dessas pessoas banais, num bairro banal, de uma cidade industrial interiorana e também banal.  Em algum momento a educação – não só o ensino da história – mas, todo o processo educativo, falhou! A escola não soube, ou não pode com seus meios, evitar o nazismo (de novo)! O grupo de Zwickau é uma derrota da escola, para além de comprovar a leniência histórica da polícia alemã com a extrema-direita fascista.
Podemos, é claro, falar de uma sociedade hierárquica, por demais organizada, pronta para sacrificar o individual e o humano, ao rigor das agendas, das normas, dos parágrafos e artigos dos códigos, dos quais não se pergunta, ou questiona, a origem e significado.  
Podemos, é claro, falar de pessoas massivamente sozinhas, em rotinas enfadonhas, sem espaço para o diferente, onde até um passeio, uma “Pils” no bar da esquina, obedece a regras, horários e normas, que não podem ser contrariadas.
Podemos é claro, falar de pessoas que não se cumprimentam, ou o fazem quase como um rosnado, que fingem não ver o outro e que lêem sempre o mesmo livro barato da “Reclamen” na viagem de metrô só para não falar com o passageiro ao lado.
Podemos, ainda, falar de uma pequena classe média, de uma burguesia de lojistas, de funcionários públicos e agentes do estado – todos na beira da proletarização ao estilo europeu! – que desconfiam naturalmente de estrangeiros.  Pouco importa que você fale alemão, já estão disponíveis a não entender, a não ajudar, a recusar uma informação ou mesmo um serviço.
Mas, nada disso explica por si só o retorno. Mesmo rotineiros e solitários a grande maioria dos alemães é partidária da República, apóia a Constituição democrática e convive de forma normal com os seus vizinhos, mesmo se eles são estrangeiros. Muitos preferem bares, restaurantes e quiosques de turcos, gregos ou italianos e gostam de  pizza, kebap e de caipirinhas.
Mas, podemos também acreditar que existem aqui e ali pessoas caladas, bons vizinhos, que gostam de gatos e pagam suas contas em dia, que não fazem barulho e não perturbam os vizinhos, como Beate, e que tramam coisas terríveis.
Quem deseja o passado
Há, então, uma minoria disponível ao retorno da história, a sua repetição – e ainda esta vez não é como burla, comédia ou farsa, como atestam os mortos de Zwickau. Há um componente autoritário, há um componente de recusa ao diferente e de frieza nas relações interpessoais – incluindo aí as relações entre os próprios alemães, com seus próprios filhos - e, em torno disso tudo, uma profunda falha de educação – no seu sentido mais largo.
Por isso mesmo, pelo papel dos educadores, que o passado não é algo morto, não é um lugar que não existe mais. Muitos historiadores, colegas de grande valor, foram conquistados por matizes diferentes de uma leitura narrativista da história, onde o objeto do historiador não é o passado e sua reconstrução, mas sim as “falas” sobre o passado, todas dotadas do mesmo estatuto de valor. Penso que não. Nem todas as narrativas possuem o mesmo valor heurístico, para não falar em valor ético. Da mesma forma que as diversas vivências são irredutíveis.  A narrativa sobre os campos de concentração feita pelos seus guardas SS não possui o mesmo valor da narrativa de um prisioneiro do mesmo campo, embora ambos tenham vivido no mesmo espaço e tempo e inter-agido. O que cada um vive difere intrinsecamente da vivência do outro. E cada vivência é única, precisa ser resgatada e exposta. Ela é a verdade? Não toda a verdade, é a verdade vivida de cada um, ou seja, o passado num mosaico interminável. A multiplicação de verdades vividas, juntas, comparadas, cruzadas, constitui uma rede de veracidade.
Temos que nos apressar  em relatar estas vivências, num esforço contínuo para evitar rupturas nesta vasta rede de verdades vividas. Uma falha na malha, ampla, diversa, como uma tela iluminada de Matisse, é o bastante.  O risco de ignorar o que foi vivido avoluma-se, condenando-nos a viver de novo e de novo o “já existido” enquanto experiência única.
Se os assassinos de Zwickau tivessem visitado, quando adolescentes, o Campo de Sachsenhausen ou Dachau teriam eles organizado o grupo neonazista que torturou e matou durante anos impunemente? Eis uma questão importante.
Quando na Alemanha, ou ainda agora no Chile, ou mesmo no Brasil muitas vozes declaram que o passado está morto ( “quem vive de passado é museu”! ) e não vale à pena ressuscitá-lo, cometem um erro basilar: nenhum passado é morto. São vivências, próprias e dos outros, que continuam a existir, alimentar-se mutuamente e, formando uma rede que envolve todos nós... e no limite, a repetir-se.
Olhando agora pela minha janela, vejo  todo o passado nos tijolos remendados apressadamente no bloco de apartamentos da Rua da Comuna de Paris – formam uma outra rede de buracos e ausências. O passado está lá, está na Rua da Primavera e está com aqueles que morreram porque o passado vive.
Francisco Carlos Teixeira Da Silva
Professor Titular do Instituto de História da UFRJ
Coordenador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente da UFRJ